Por que alguns voltam a engordar depois de recorrer à cirurgia de obesidade e o que fazer para afastar este perigo (Parte 1)

Por Cristina Nabuco

Reunidas as economias, sinal verde do Plano de Saúde, ou chamada após longa espera na fila do serviço público e a cirurgia finalmente foi marcada. Você imagina que seja o fim da linha, a solução definitiva para a obesidade. Só que a realidade nem sempre corresponde à expectativa. Passada a fase de emagrecimento acelerado, muita gente volta a engordar. Segundo pesquisa realizada na Gastrocirurgia de Brasília, mais de 52% dos operados recuperam entre 2 e 7 quilos - um ganho pequeno se comparado aos 40 a 50 quilos eliminados no pós-operatório. Mas 19% têm um ganho de peso importante que ultrapassa 7 quilos e pode chegar a 20 quilos ou mais. O que será que deu errado? “O grande problema é que se opera o estômago, não a cabeça”, diz o gastroenterologista Arnaldo Ganc, professor da Universidade Federal de São Paulo. “A pessoa perde peso e vive dias de glória. Daí começa a relaxar e volta a comer demais.”

Em outras palavras, não existe mágica. “Todo tratamento de obesidade deve incluir mudança no estilo de vida”, atesta o cirurgião baiano Marcos Leão Vilas Boas, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica. O humorista Dedé Santana sabe bem do que se trata. Pesando mais de 100 quilos, ele decidiu recorrer ao bisturi.

Emagreceu quase 40 quilos. Ao retomar a rotina de viagens para gravações, voltou a abusar de doce de leite e suspiro. Recuperou 10 quilos e as roupas que havia mandado apertar já estavam ficando justas de novo. Sob orientação do nutrólogo catarinense Danny César, Dedé melhorou seus hábitos alimentares, passou a beber mais água e se livrou dos 10 quilos extras.

Onde está o problema? Na técnica utilizada em 85% das operações para controle da obesidade no Brasil, o bypass gástrico ou cirurgia de Fobi-Capella, a capacidade normal do estômago é reduzida de 1,5 litro para 20 ml (o conteúdo de um copinho de café), depois que o órgão é separado em duas partes: a maior (o chamado ex-estômago), continua produzindo os sucos gástricos, mas a comida deixa de passar por ali. A menor é conectada ao intestino delgado e um anel de silicone pode ser colocado no encontro entre este estômago reduzido e o intestino para restringir ainda mais a capacidade de ingerir alimentos. Então a pessoa se vê obrigada a comer muito pouco e a mastigar bem, do contrário pode engasgar e vomitar.

Com o tempo, de 20% a 30% dos operados aprendem a driblar as restrições: descobrem que alimentos líquidos, pastosos ou miúdos (sorvete, leite condensado, pudim, amendoim, bebidas doces ou alcoólicas), passam pelo estômago reduzido sem causar desconforto se forem ingeridos várias vezes, em pequenas porções, e daí começam a abusar de produtos altamente calóricos. Resultado: sua capacidade pode aumentar de 20 ml para até 200 ml, e a costura na ligação entre ele e o intestino alargar, a ponto, inclusive, de romper o anel restritivo. Alguns excessos, inclusive, podem causar graves complicações como a que atingiu o socialite Chiquinho Scarpa, em abril.

Cinco dias depois de se submeter à cirurgia de redução de estômago, ele ingeriu 5 litros de água e suco de uma vez, o que provocou o rompimento de um dos pontos da cirurgia. Com isso, o líquido vazou para a cavidade abdominal, dando origem a uma peritonite, infecção na membrana que reveste o abdome, e colocou sua vida em risco.

Resta saber por que ex-obesos sabotam seus planos de fazer as pazes com a balança depois de enfrentar os rigores do bisturi. “A comida pode ser uma bengala que os ajuda a atravessar as dificuldades de sua vida”, explica a psicóloga Claudete da Silva, que trabalha no Ambulatório de Cirurgia Bariátrica da Faculdade de Medicina do ABC e na Clínica Plástica e Beleza. “É preciso aprender a separar as emoções da alimentação para conseguir viver sem essa bengala”. Segundo a psicóloga, a maioria acha que vai tirar de letra, mas na hora H pode ser mais difícil do que parecia.

O técnico de Informática Kelme Voltan quase sucumbiu à tentação. Aos 26 anos, pesando 175 kg e já com pressão alta devido ao excesso de peso, ele resolveu se submeter à redução do estômago. “O primeiro mês foi terrível! Queria comer, mas não podia. Fiquei com péssimo humor”, conta. Aos poucos, Kelme foi aprendendo como e o que comer para não passar mal. “Descobri que doces moles e líquidos digerem rápido e não deixam você estufado. Logo eu já estava bebendo muito refrigerante de novo. Até que levei um susto. Subi na balança e vi que em vez de continuar a emagrecer, eu voltei a engordar. Foi quando entendi que não existe milagre e comecei a me controlar.”

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