Hipertensão Arterial e Obesidade

Recomendo o artigo cedido gentilmente pelo Prof. Dr. Newton Nunes. Acesse também www.areadetreino.com.br.  Boa leitura.

A obesidade que é caracterizada como o acúmulo excessivo da gordura corporal, e mais especificamente, a obesidade central (ou abdominal) que é caracterizada como o acúmulo excessivo de tecido adiposo na região abdominal, é talvez o maior fator de risco para o desenvolvimento de hipertensão (07). Além disso, a hipertensão em indivíduos obesos é normalmente complicada pela presença de outros fatores metabólicos que estão comumente associados à obesidade, como a dislipidemia, hiperinsulinemia e tolerância a glicose reduzida (11).

O aumento da prevalência da hipertensão ocorre em indivíduos obesos, além de a obesidade ser um importante fator preditor de doenças cardiovasculares, aumentando a morbidade e mortalidade. Isso pode ocorrer em parte devido a alterações no sistema renina-angiotensina (RAS) e no sistema nervoso simpático (SNS).

O ganho excessivo de peso corporal está associado com o aumento da retenção de sódio e expansão do volume extra celular, fatores determinantes para aumento da pressão arterial. Isso pode está associado à elevação da atividade da renina plasmática, do angiotensinogênio plasmático, da atividade da enzima conversora de angiotensina (ACE) e da concentração plasmática de angiotensina 2 (13).

O papel do RAS na hipertensão associada à obesidade é subsidiado pelo possível papel benéfico do bloqueio do RAS no tratamento da hipertensão (28). Diversos estudos, em modelos animais e humanos, demonstram o bloqueio do RAS como estratégia. O tratamento de cachorros obesos com um antagonista do receptor de angiotensina 2 ou um inibidor da ACE inibiu a retenção de sódio e a expansão do volume extra celular, normalmente observado na obesidade, assim como a elevação da pressão arterial (26). Ademais, o angiotensinogênio (precursor direto da angiotensina) pode ser produzido localmente no tecido adiposo, estimulando o crescimento e diferenciação dos adipócitos, além de também poder ser secretado na corrente sanguínea e contribir para a concentração plasmática de angiotensinogênio circulante (19). Também foi demonstrado que dieta hiperlipídica induzindo obesidade aumentou a expressão gênica do angiotensinogênio no tecido adiposo intra-abdominal de camundongos (24). Esses dados poderiam explicar o aumento do angiotensinogênio plasmático normalmente encontrado na obesidade, e conseqüentemente, aumento da angiotensina 2.

Estudos em humanos também demonstram o papel do bloqueio do RAS como estratégia para tratamento da hipertensão. A utilização de inibidores da ACE é eficiente em reduzir a pressão arterial em humanos obesos, principalmente em pacientes jovens (25). Além do mais, outro estudo dá suporte ao involvimento do RAS com a hipertensão associada à obesidade. Foi demonstrado que em mulheres na menopausa que reduziram 5 % no peso corporal através de dieta, houve uma redução de 7 mmHg na pressão arterial. Esses resultados foram acompanhados também de uma redução no agiotensinogênio sérico, renina, ACE e expressão da angiotensina no tecido adiposo (06).

Além disso, a aldosterona também tem sido associada ao desenvolvimento da hipertensão associada à obesidade (24). Pois, foi encontrada concentração elevada de aldosterona em indivíduos obesos e hipertensos, principalmente aqueles com obesidade abdominal (08). Esse envolvimento da aldosterona na hipertensão associada à obesidade também foi demonstrado através do bloqueio do receptor de mineralocorticóide em cachorros obesos por dieta hiperlipídica. Esse procedimento atenuou marcadamente a retenção de sódio e a hipertensão (05). Esses resultaram indicam um papel importante da aldosterona na patogênese da hipertensão associada à obesidade.

Outro mecanismo que pode está implicado no desenvolvimento da hipertensão associada à obesidade é a hiperativação do sistema nervoso simpático (SNS), importante sistema de controle da pressão arterial. Como já demonstrado, alta ingestão calórica, fator importante para o desenvolvimento de obesidade, está associada a um aumento na concentração plasmática de noradrenalina e aumento da resposta da noradrenalina a estímulos externos (17). A atividade do SNS foi associada com o aumento do índice de massa corporal (IMC) em humanos (29) e indivíduos obesos normotensos apresentaram aumento da atividade do SNS comparados com indivíduos magros (10). Ademais, não foi demonstrado apenas aumento da atividade sistêmica do SNS, mas foi observado em indivíduos obesos um aumento da atividade do SNS no rins (31), um importante órgão de controle do sistema cardiovascular. Essa elevada atividade do SNS no rins também foi descrita em modelos animais de obesidade induzida por dietas hiperlipídicas (13). Dando suporte a essas afirmações, outro estudo demonstrou que o SNS está envolvido na inicialização, manutanção e progressão da hipertensão (10).

Corroborando com as informações descritas acima, estudos demonstram que o bloqueio farmacológico da ação do SNS é uma estratégia eficiente para redução da pressão arterial. O bloqueio dos receptores α e β do SNS reduziu a pressão arterial em cachorros alimentados com dieta hiperlipídica (12). Esses resultados foram mais evidentes nos animais obesos do que nos animais magros. Em outro estudo que utilizou uma droga que age centralmente e reduz a atividade do SNS, foi observada redução da pressão arterial, também em cachorros obesos por dieta hiperlipídica (27). Em humanos, o bloqueio combinado dos receptores α e β do SNS por 1 mês reduziu a pressão arterial em indivíduos obesos hipertensos mais pronunciadamente do que em indivíduos magros também hipertensos (33). Resultados que corroboram com isso, foram demonstrados em outro estudo, que 6 meses de tratamento com bloqueadores do SNS melhorou o controle da pressão arterial em pacientes com hipertensão essencial, independentemente da resistência à insulina (21).

Esses resultados dos estudos descritos acima reforçam a hipótese de que a ativação elevada do SNS possui um papel importante na patogênese da hipertensão associada à obesidade.

Referências Bibliográficas

1.  Barreto-Filho, J.A S., Krieger J.E. Genética e hipertensão arterial: conhecimento aplicado à prática clínica? Rev. Soc. Cardiol. Est. SP. 2003: 13(1) 46-55.

2.  Beevers, G., O Brien, E., Lip, G. Y. H. Blood pressure measurement. BMJ, 2001; 5: 322: 1110-1114.

3.  Brown, N. J., Roberts, L.J. Histimine, bradykinin, and their antagonists. In: Goodman and Gilmans The Pharmacological Basis of Therapeutics, 10 edição, editado por Hardman, J.G. and Limbird, L.E.: McGraw-Hill, 2001.

4.  Campbell, M., Fitzpatrick, R., Haines, A, Kinmonth, A L., Sandercock, P., Spiegelhalter, D., Tyrer, P. Framework for design and evaluation of complex interventions to improve health. BMJ, 2000; 16, 321: 694-696.

5.  De Paula RBDa Silva AAHall JE. Aldosterone antagonism attenuates obesity-induced hypertension and glomerular hyperfiltration. Hypertension. 2004;43(1):41-47.

6.  Engeli SBöhnke JGorzelniak KJanke JSchling PBader M et al. Weight loss and the renin-angiotensin-aldosterone system. Hypertension. 2005;45(3):356-362.

7.  Freedman DSKhan LKSerdula MKGaluska DADietz WH. Trends and correlates of class 3 obesity in the United States from 1990 through 2000. JAMA. 2002;288(14):1758-1761.

8.  Goodfriend TLCalhoun DA. Resistant hypertension, obesity, sleep apnea, and aldosterone: theory and therapy. Hypertension. 2004;43(3):518-524.

9.  Grassi GSeravalle GCattaneo BMBolla GBLanfranchi AColombo M et al. Sympathetic activation in obese normotensive subjects. Hypertension. 1995;25(4 Pt 1):560-563.

10.        Grassi G. Sympathetic overdrive and cardiovascular risk in the metabolic syndrome. Hypertens Res.2006;29(11):839-847.

11.        Haffner STaegtmeyer H. Epidemic obesity and the metabolic syndrome. Circulation.2003;108(13):1541-1545.

12.        Hall JE, Van Vliet BN, Garrity CA, Torrey C, Brands MW. Obesity hypertension: Role of adrenergic mechanisms. Hypertension. 1993;21(Abstract):528.

13.        Hall JE. The kidney, hypertension, and obesity. Hypertension. 2003;41(3 Pt 2):625-633.

14.        Irigoyen, M.C., Lacchini, S., De Angelis, K., Michelini, L. Fisiopatologia da hipertensão arterial: o que avançamos. Rev. Soc. Card. Est. SP. 2003; v.1, 30-45.

15.        Kohlman, O, Neves, F. A R., Gindza, M., Tavares, A, Cezaretti, M.L., Zanella, M.T., Ribeiro, A B., Gavras, H. Role of bradykinin in insulin sensitivity and blood pressure regulation during hyperinsulinemia. Hypertension, 1995; 25: 1003-1007.

16.        Krieger, E.M., Brum, P.C., Negrão, C. E. Baroreceptor function cardiovascular adjustments cardiac b-adrenergic tone during exercise in spontaneously hypertensive rats. Hypertension, 1999; 26: 1129-1133.

17.        Landsberg LKrieger DR. Obesity, metabolism, and the sympathetic nervous system. Am J Hypertens.1989;2(3 Pt 2):125S-132S.

18.        Mancia, G. Staesses, J A, Thijs, L, Fagard, D. Predicting cardiovascular risk using conventional versus ambulatory blood pressure in older patients with systolic hypertension. JAMA, 1999: 282: 539-546.

19.        Massiéra FBloch-Faure MCeiler DMurakami KFukamizu AGasc JM et al. Adipose angiotensinogen is involved in adipose tissue growth and blood pressure regulation. FASEB J.2001;15(14):2727-2729.

20.        Michelini, L. Regulação neuro-humoral da pressão arteiral. Fisiologia. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 1999.

21.        Nowak ŁAdamczak MWiecek A. Blockade of sympathetic nervous system activity by rilmenidine increases plasma adiponectin concentration in patients with essential hypertension. Am J Hypertens.2005;18(11):1470-1475.

22.        Perticone, F., Ceravolo, R., Pujia, A, Ventura, G., Iacopino, S., Scozarafa, A, Ferraro, A, Chello, M., Mastroroberto, P. Verdecchia, P. S, Schillaci, G. Prognostic significance of endothelial dysfunction in hypertensive patients. Circulation 2001; 104: 187-191.

23.        Rahmouni KCorreia MLHaynes WGMark AL. Obesity-associated hypertension: new insights into mechanisms. Hypertension. 2005;45(1):9-14.

24.        Rahmouni KMark ALHaynes WGSigmund CD. Adipose depot-specific modulation of angiotensinogen gene expression in diet-induced obesity. Am J Physiol Endocrinol Metab.2004;286(6):E891-E895.

25.        Reisin EWeir MRFalkner BHutchinson HGAnzalone DATuck ML. Lisinopril versus hydrochlorothiazide in obese hypertensive patients: a multicenter placebo-controlled trial. Treatment in Obese Patients With Hypertension (TROPHY) Study Group. Hypertension. 1997;30(1 Pt 1):140-145.

26.        Robles RGVilla ESantirso RMartínez JRuilope LMCuesta C et al. Effects of captopril on sympathetic activity, lipid and carbohydrate metabolism in a model of obesity-induced hypertension in dogs. Am J Hypertens. 1993;6(12):1009-1015.

27.        Rocchini APMao HZBabu KMarker PRocchini AJ. Clonidine prevents insulin resistance and hypertension in obese dogs. Hypertension. 1999;33(1 Pt 2):548-553.

28.        Sharma AM. Is there a rationale for angiotensin blockade in the management of obesity hypertension? Hypertension. 2004;44(1):12-19.

29.        Troisi RJWeiss STParker DRSparrow DYoung JBLandsberg L. Relation of obesity and diet to sympathetic nervous system activity. Hypertension. 1991;17(5):669-677.

30.        Turner, S. T., Boerwinkle, E. Positional genomic analysis identifies the B2 adrenergic receptor gene as a susceptibility locus for human hypertension. Circulation, 2000; 101: 2871-2877.

31.        Vaz MJennings GTurner ACox HLambert GEsler M. Regional sympathetic nervous activity and oxygen consumption in obese normotensive human subjects. Circulation. 1997;96(10):3423-3429.

32.        Wicklmayr, M., Rett, K., Fink, E., Tschollar, W., Baldermann, H., Tymiec, M., Dietze, G., Mehnert, H. Bradykinin is not liberated by working skeletal muscle in diabetes type II. Horm. Metab. Res. 1989; 21(4), 212-223.

33.        Wofford MRAnderson DC JrBrown CAJones DWMiller MEHall JE. Antihypertensive effect of alpha- and beta-adrenergic blockade in obese and lean hypertensive subjects. Am J Hypertens. 2001;14(7 Pt 1):694-698.

1 Comentário(s)! Comente mais!

  1. Ministério da Saúde

    Olá blogueiro!
    O número de pessoas com hipertensão no Brasil aumentou de 21,5%, em 2006, para 24,4%, em 2009. A hipertensão é uma doença silenciosa e ataca todas as faixas etárias. Por isso, junte-se à campanha de combate e controle da hipertensão do Ministério da Saúde. Você pode ajudar na conscientização da população por meio do material de campanha que disponibilizamos para download.
    Caso se interesse, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br
    Obrigado!
    Ministério da Saúde

    Postado em 30/06/2010

Deixe seu Comentário!

Preencha os campos abaixo. Campos obrigatórios marcados com *
*
*